Domingo, 16 de Março de 2014

Espera

 

 

 

Não venhas primavera

eu ainda não estou pronta...

falta limpar cardos, espinhos e mãos gretadas.

Está escuro ainda

e os dias são pequeninos como bréu.

Não venhas ainda.

Chove.

O tronco espera a seiva 

bruta e viva

e as manhãs cheiram a mofo,

a titãs secas... 

mortas.

Não venhas ainda

eu não estou pronta.

 

 

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Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

Caduco ou persisto

 

 

Outono dos crepúsculos doirados,

De púrpuras, damascos e brocados!

- Vestes a terra inteira de esplendor!


Florbela Espanca

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Sábado, 30 de Novembro de 2013

Os nós e os laços

A paixão incendeia madeiras secas e ramos verdes.

A alegria enfeita os frágeis laços do amor.

Os filhos dão sentido à caminhada......as viagens aventura, as experiências comuns memórias e cumplicidades.

Mas a dor solidifica!

A dor partilhada constrói nós.

O amor enrigesse,cresce,endurece, cola......

 

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Sábado, 23 de Novembro de 2013

Obrigada

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Quinta-feira, 21 de Novembro de 2013

Dia

Há dias assim.

Apetece acordar d.e.v.a.r.i.n.h.o e agradecer.

Agradecer todas as benções maravilhosas que ainda tenho.

Porque cada dia é mais um recomeço, uma nova hipótese, uma nova vida.....

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

Simetricamente diferente

Dualidades...

espelho de mim.

 

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Domingo, 10 de Novembro de 2013

Irmãs árvores

Lindo......
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Luz


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Domingo, 22 de Setembro de 2013

Outono

Vem outono

e embala-me nas tuas folhas

de vento Suão..

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Quarta-feira, 24 de Julho de 2013

Cedo o meu lugar

Game over ou...

...chegou a vez de passar o jogo.

 

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Sábado, 20 de Julho de 2013

Síndrome de mim

 

Tudo...

numa semana...

 

Segunda-feira  um  balão de ar quente....

na sexta

...... um saco de boxe !

 

 

           

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Quinta-feira, 11 de Julho de 2013

THANATOS

 

Verão metamorfótico 

longo e curto,

sem rumo, 

só estrada.

Lento  calor

carinata fasciculata

sufocada

rastejada.

Seiva quente

estridulante cantar.

E Thanatos ...

suspenso....

entorpecido

...dorme...

no meio do caminho.

 

 

 

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Domingo, 9 de Junho de 2013

Um outro olhar

Junho disfarçado de outono.

Passeata pela minha terra.

Lugares tão colados que quase já nem damos por eles.

Tão passados. Pouco revistos.

Revisitar.

Com outro olhar.

 

 

 

 

 

 

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Sábado, 1 de Junho de 2013

A arte da troca

 

Porque trocar,

mesmo quando para melhor,

traz sempre nostalgia!

 

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Domingo, 5 de Maio de 2013

Mães

E o mundo divide-se entre aqueles que são mães...

...e os outros!



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Quarta-feira, 1 de Maio de 2013

Maio

Gosto de maio.

Faz lembrar dias mornos e fins de tarde serenos.

Maio cheira a morangos, cerejas, mães e flores.

Tráz aniversários e reencontros. Feiras e livros. Leveza e liberdade.

Gosto do som de maio. Amarelo  e doce.

 

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Sábado, 13 de Abril de 2013

Assim não dá!

As instituições que temos, hoje, estupidificam, quase sempre, as massas. Principalmente daqueles que não questionam, que não dão sentido ao caminho, que aceitam ordenadamente as regras do jogo.

E a escola actual é perita nisso.

A escola nem sempre permanece.  

Principalmente quando foi má ou tão disfarçadamente nula que apagou memórias e vivências. Falo com amigos que não lembram nada desses ‘‘mágicos’’ anos.  Acho estranho. Eu que lembro caras, cheiros, cores, sons, sensações….É verdade que   ‘A educação é aquilo que permanece depois de esquecermos tudo o que nos foi ensinado’…e muito lá deve ter ficado, de certeza…mas acho estranho na mesma essas ausências.

O principal , desse anos, não foi de certeza a quantidade de conteúdos que conseguimos absorver, mas a qualidade de sensações positivas que nos estruturaram e deram sentido àquilo que hoje somos.

Por isso irrita-me essas falsas morais de que a criança, nessa etapa, perde ‘escola’, quando vive experiências pontuais com os pais. Perde NADA!!

A escola de hoje, é apenas um lugar. O conhecimento está em todos os lugares onde há partilha, cumplicidade e amor de pais.

Mas, a frustração de mãe aparece quando menos se espera.

Inventem-se novos pais, novos filhos,  principalmente novas escolas!

Assim já não dá!

O sistema, tal como está, já deu o que tinha a dar. Tornou-se obsoleto, esquizofrénico, uma armadilha serviçal do poder e dos políticos. Há que manter as mentes adormecidas, desumanizadas e inconscientes.

Certo é que, grande número de professores, pais e alunos, não se sentem minimamente, realizados nestas suas ‘missões’. Esta insatisfação vem, acima de tudo, deste sistema que domestica, formata, seleciona e não deixa ser.

Bem, na verdade posso estar a exagerar....Mas esta semana tive em duas reuniões de pais. Numa delas os professores queixavam-se da falta de motivação dos alunos, da sua alienação e do vazio dos seus projetos. Em paralelo com uma enorme irresponsabilidade, desumanidade e falta de valores.

É sábado. Está sol finalmente. Tinha planeado uma ida à Gulbenkien: ‘ A descoberta do Novo: poderemos imaginar o que nunca vimos?’- seria a actividade em família. Depois passeio pelo jardim. Sol. Fotografias. Cheiro. Luz, Partilha. Diálogo. Descoberta. Cumplicidades…..

Mas não. Estamos em casa. Presas à escola. Ajudo na elaboração de maquetes e power points e vejo o vazio em tudo isso.

Preparo ensaios de testes intermédios nacionais, que os meus alunos de sete e oito anos, vão realizar em noventa minutos, onde se espremem meninos e se obtêm rankings, grelhas, mapas e estatísticas que nada mostram, com critérios de avaliação subjectivos e contraditórios.

 Inventemos novas escolas! Reais, humanas, criativas.

 Mas depressa, se faz favor. Eu quero fazer parte!


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Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

PINK

Dia rosa !?

Nem por isso.

Mas a PinK perseguiu-me todo o dia com  Try, try,try.....

Será um sinal?!

Não sei.

Só sei que , finalmente ,amanhã não vai chover.

E...o que é que uma coisa tem haver com outra??- perguntam vocês- se houvesse vocês desse lado.

Nada. Não tem nada haver.

Mas hoje passei o dia a ouvir disparates.

Só com PinK volto ao lugar.

 

 

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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Insatisfação

 

Vou continuar a procurar o meu mundo,

o meu lugar
Porque até aqui eu só...

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou...


António Variações

 

 

 

 

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Segunda-feira, 25 de Março de 2013

Gosto de zantedeschias aethiopicas. É isso!

Permaneci nesse corpo

Dissonante vertigem

Altiva e branca.

 

Não bebi em teu cálice

Corpo em alerta

Breve paragem.

 

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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

AMA

« Ama!

Dentro do templo,ajoelha-te.

No estádio de futebol,grita pela tua equipa.

Numa festa , comemora.

Durante um beijo, apaixona-te.

De frente para o mar, despe-te.

Reencontras o amigo, escuta-o. 

 

Ou então , muda tudo.

Se preferires:


Dentro do templo, escuta-O.

Durante um beijo,despe-te.

No estádio de futebol, apaixona-te.

De frente para o mar, ajoelha-te.

Numa festa,grita pela tua equipa.

Reencontras um amigo, comemora.

 

Mas AMA !!!!!»

 

M.M

 

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

Estou em modo destralhar!

 

Objetivo do mês: destralhar!

Há mais de dois anos que tento destralhar.

Hoje destralhei imenso e sinto-me muito mais leve!

Missão difícil e até dolorosa.

Não sou uma acumuladora compulsiva do TLC, mas tenho certa tendência para guardar coisas.

Atribuo mil significados: futura reutilização, futura aplicação, futuro uso, recordação passada, afecto passado, memória passada….

Estratagemas do ego! 

Com esta história do passado e do futuro acabo por esquecer o presente,…o único que existe mesmo!

Há mais de um ano que roupas não são usadas, que tralhas não são úteis, que monos ocupam espaços preciosos de vazio.

E, se não lhes aconteceu nada durante anos, também não lhes vai acontecer nada futuramente.

Mas, à última hora, surge sempre aquela vozinha interna e enferma: « E se vieres a precisar…?», « E se for útil para alguma coisa….?»... «…e se….e se….».

Tretas!

Tenho de livrar-me de coisas e viver o HOJE.

Tenho de reeducar este apego emocional! Memórias ficarão sempre cá dentro. Onde devem estar!

Há que desocupar espaços e dar lugar à simplicidade.

E isso aplica-se também à tralha mental, a planos, projectos, ideias e pensamentos.

Há que limpar, simplificar, destralhar, minimizar, relativizar.

Tarefa difícil. Muito difícil e sinuosa.

Relativizar compromissos, estabelecer prioridades, trocar mapas por bússolas.

Ser consciente. Fazer escolhas ecológicas, controlar o tempo, desmaterializar, sentir leveza.   

Em casa acham-me estranha e pensam que bebi litros de Red Bull. A empreitada é lenta e cheia de pequenos grandes passos.

Gradualmente, as camadas que me camuflam também vão tombando e vou -me redescobrindo e dando espaço a pormenores que realmente me apaixonam.

Haverá espaço, por fim, para dedicar-me ao essencial…e viver coisas novas, simplesmente.

 

 

 

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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

Rotações em mim maior

 

Tenho andado às voltas...dentro de mim !


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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Doce infância

 

Os meus alunos andam a perder os dentes. Sinal de crescimento e de novas descobertas. Maxilares maiores, cérebro maior.

Lembro do momento mágico, que vivi com a minha filha mais nova, nessa altura.

A fadinha dos dentes era infalível.

Trocas perfeitas entre caninos e moedas, entre molares e livros, entre incisivos e brinquedos.

Uma maravilha!

A certa altura, e já a explodir de curiosidade e de excitação, ela pôs-me entre a espada e a parede, e ultimou-me:

_ Mamã, diz a verdade, diz, por favor, diz! Tu é que és a fadinha dos dentes?! Não és!?

Pronto! Estava tudo acabado – pensava eu -.  A magia tinha terminado, as asas tinham caído e o frasco do perlimpimpim chegara ao fim.

Desarmada, entreguei armas e ilusões.

_ Sim. Sou eu.

Mas, num ‘volt-fast’ surpreendente e digno do top das fadas, os olhos da minha menina abriram-se ainda mais.

Mil estrelas luziram, na sua infância feliz, e gritou de espanto e felicidade:

_Mamã!!!!!!!!!! Como consegues ir a casa de todos os meninos!!!

Nada tinha terminado, pelo contrário.

A magia da infância tinha rejuvenescido, tal Fénix renascida.

 

 

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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Para Anne

Li pela primeira vez, 'O diário de Anne FranK', com 12 anos.

Para mim, Anne  era uma menina, com sonhos, segredos, projectos, ansiedades e angustias, como todas as meninas de 12 anos .

Esperava encontrar uma menina heroína: Mas ela era 'apenas' uma menina como eu. Por isso o seu testemunho era muito mais forte e intenso para mim. Por isso eu ria com as suas patetices e chorava com os seus dramas.

Foi com ela que relembrei a estupidez da guerra e a relatividade dos 'não' problemas.

Neste dia,  Internacional da Memória do Holocausto, o meu post vai para a Anne e para todos, que ainda hoje, são vítimas de todos os tipos de tortura. 

 

 

' Basta de brincadeira, deixa-me falar a sério. Não parecerá inconcebível ao Mundo, depois da guerra - digamos dez anos depois -, o que nós, os judeus, contarmos sobre a nossa vida aqui, as nossas conversas e as nossas refeições? Pois embora te tenha contado muita coisa, tu ainda só ficaste a saber uma pequena parcela desta vida.
O medo das senhoras, quando há bombardeamentos como os do Domingo passado, em que trezentos e cinquenta aviões ingleses lançaram meio milhão de quilos de dinamite sobre Ijmuiden e as casas estremeceram como as folhas com o vento.

E o terror das epidemias que grassam no país! Disto ainda sabes pouco, e seria preciso que eu escrevesse todo o dia se quisesse fazer um relatório completo. A população forma bichas para comprar hortaliça ou seja o que for. Os médicos não podem visitar os seus doentes, porque lhes roubaram o automóvel ou a bicicleta. Ouve-se falar de pequenos furtos e de roubos em grande escala, e eu pergunto a cada passo o que foi feito da honestidade dos holandeses, quase proverbial?

Crianças dos oito aos onze anos partem os vidros das habitações alheias e tiram tudo o que lhes vem parar às mãos. Ninguém tem coragem de deixar ficar a sua casa abandonada durante cinco minutos, pois, ao voltar, pode muito bem encontrá-la vazia. Todos os dias se leem nos jornais anúncios em que se prometem gratificações pela entrega de coisas roubadas, máquinas de escrever, tapetes persas, relógios eléctricos, tecidos, etc., etc. Os relógios das ruas são desmontados, e até se tiram os telefones das cabinas sem deixar ficar um pedaço de fio sequer.'

(...)

'Estas perguntas são legítimas, mas até agora ninguém soube encontrar-lhes uma resposta satisfatória. Porque é que na Inglaterra se constroem aviões cada vez maiores, bombas cada vez mais pesadas e, ao mesmo tempo, se reconstroem filas de casas? Porque é que se gastam todos os dias milhões para a guerra, se não há dinheiro para a medicina, os artistas e os pobres? Porque é que há homens a passar fome se, em outros continentes, apodrecem víveres? Porque é que os homens são tão insensatos?'

(...)

'Se Deus me deixar viver, hei-de ir mais longe do que a mãe. Não quero ficar insignificante. Quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade.
          O que sei é que a Coragem e a Alegria são os factores mais importantes na vida!'

 

Anne Frank 

 

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Sábado, 19 de Janeiro de 2013

Mamy blue !

 

Hoje sonhei com a minha prima T.

Um dia, chegou orgulhosa dos seus 18 anos e disse-me com ar de quem já sabe muito:   '_Acabaram- se os livros dos Cinco!’ _ ‘Temos de começar a ler os clássicos’.

Pôs me nas mãos o calhamaço ‘BenHur’, depois, tal como na expansão do império romano, a incursão aumentou. Vieram ‘Robinson Crusoé’,

‘A volta ao mundo em oitenta dias’, ‘Viagens na minha terra’, ‘Esteiros’, ‘D.Quixote’ e tantos outros que me alargaram os braços e a imensidão do mar e das palavras.…

Admirava-a em segredo e imaginava as recônditas histórias que ouvia a seu respeito. As crianças que crescem sem irmãos apuram o seu sentido de observação e veem coisas transparentes, que ninguém consegue perceber. Crescem atentas. Serão atentas toda a vida.

As tias falavam das perniciosas festas da gravata. Era o ano de 75 e o movimento hippie acalorava jovens portugueses acabados de sair de uma ditadura. Eu gostava de a ir buscar ao ISPA, ainda no Chiado. Apresentava-me aos amigos ‘grandes’ como se eu fosse ‘grande’ .E eu gostava. Tinha permissão para entrar no seu quarto, quando todos cantavam ‘Mamy Blue’. Ficávamos ali, em roda, pernas à chinês. Ricky Shayne e nós.  Vozes arrastadas e as violas em uníssono. Levava-me à Gulbenkian em noites de inverno e injetava me com bailados russos e pas- de -deux acabados de chegar, pela mão do jovem Salavisa. O Lago dos Cisnes,La Sylphide, Coppélia, Raymonda, Festival das Flores e Romeu e Julieta,…

Oito anos nos separavam, ou talvez nos unissem. Eu era o barro, ela o oleiro, jovem e idealista. Lembro-me dela. Tanto! Como marcou essa minha serena e atenta infância! Como a salpicou com borrifos de lucidez e de tolerância. Como me ensinou a imensurabilidade do mundo lá fora e o prazer do ignoto.

Partiu antes da hora. Se é que há horas certas para partir.  

Nunca pude crescer ao ponto de lhe dizer, como foi importante para mim.

 

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Domingo, 13 de Janeiro de 2013

Não há pachorra!

Concordo.

Ela tem aquela vozinha snob e um aparelho ortodôntico que não lhe favorece a dicção, lhe prolonga as sílabas e sei lá, a …tipo…a futilidade.

Concordo.

Pode ser mimada e superficial. Pode parecer tonta e vazia. Pode ser queque e inconsciente.

Mas chega de tanta hipocrisia!!!

Queriam o quê !?

Aqueles velhos e falsos discursos, das candidatas a Miss Universo, que tinham como sonho  e máxima, o fim da fome em África, o desaparecimento do buraco de ozono e uma série de finais felizes arrancados das  suas recentes histórias da Cinderela, com ‘… e foram felizes para sempre’.

Queriam o quê!?

Vivemos num mundo dominado pelo dinheiro, pelo consumismo, pela aparência. Abro a televisão e inundam-me com famas shows, mundos VIPs, casas de segredos, Lux, Caras e histórias de famosos.

Queriam o quê!?

Chamá-la à televisão e cruxificá-la com falsas morais é que me escandaliza!!!

 Maria José Ruela ,qual a marca da sua mala?

 Onde está o seu profissionalismo jornalístico quando fez aquelas perguntas?

 Se não fizesse perguntas idiotas o que gostaria de perguntar?

Está arrependida de fazer parte deste vale tudo, menos arrancar olhos!?

 

Tenham paciência!!

Não é a minha prioridade, nem vou concretizar este desejo…mas eu queria uma Louis Vuitton ( verdadeira), igual a essa aqui debaixo :

 

E  ?!!!!!

                             Qual é o problema ?!

                      Não há pachorra para tanta hipocrisia!!

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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

Fim de tarde - lado B

  

Há dias reais, em que chego a casa ainda viva.

Saio tarde da escola, com trabalhos pendentes e sacos cheios de projetos inacabados, que vão acabar por pernoitar no porta bagagens.

Faço compras pouco pensadas, visualizando listas que ficaram esquecidas entre livros de poemas.

Corro para casa dos P., atrás de adormecidos carros de condução.

Conduzo o leme primordial, mergulho nos laços das relações mais complexas da raça humana e queimo neurónios impotentes.

Puxo a vida, estico o tempo, agito memórias e humores. Mas serei sempre muito mais cuidada que cuidadora. Jogo dominó chinês e bocejo.

Recordo a cartolina que esqueci de comprar….e o papel autocolante…e o bostiK.

Penso no jantar, ainda hibernado no congelador de casa e recebo surpresa de P. com refeição já preparada, quase servida e dou graças.

Corro para o multibando. Apanho chuva. Levanto dinheiro para pagar à S…e ao Z.C….e à M.

Recolho filhas de escolas esquizofrénicas, levo-as aos apoios e explicações.

Regresso a casa com um turbilhão de histórias frenéticas de adolescentes eufóricas, que contam, em stereo, novidades mirabolantes de stores loucos e de Fannys ,de Marcos ,de  Alexandras , que lhe poluem o cérebro e o sentido da realidade.

Chego tarde a casa.

Uma entre a multidão.

Sonho com os dias perfeitos. Tão raros e exímios.

 

 

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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Fim de tarde

 

Há dias perfeitos, em que chego cedo a casa e respiro.

Refaço camas frias, arrumo  ténis soltos pela sala, ressuscito toalhas mortas, do chão da casa de banho, alimento tachos no fogão, desperto CDs esquecidos, abraço o gato , ronrono, abro e fecho gavetas e pensamentos.

Há dias perfeitos, em que chego cedo a casa e sorrio.

As orquídeas tiveram bebés e nascem as primeiras flores do ano.

Jardino, mudo vasos e terras.

Transplanto amores perfeitos, que teimam em viver no parapeito das minhas janelas e espero que todos cheguem a casa, para os abraçar.

 

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Cinzento

 

 

 

cinzento

adj.

Da cor da cinza.

 

cinza

s. f.

1. Resíduos de um corpo queimado.

2. [Figurado]     Restos mortais.

3. Memória dos finados. (Mais usado no plural.)

4. Luto; mortificação; dor.

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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

Começar de novo

 

   Cause they say home is where your heart is set in stone!!

 

   De regresso...

 

 

  ...Voltar a casa. Começar um novo ano.

  Regressar e recomeçar são verbos que me redefinem.

 Mas viajar,está gravado no meu ADN. Eu quero ir. Sempre. Não importa para onde. Sou viciada em andar na estrada. Sair de casa, ser         estrangeira aos olhos dos outros, mas também reaprender a conviver com a imprevisibilidade da minha estranheza.

 Fugir de mundos perfeitos e ser feliz com a minha fragilidade. Ser feliz por nada. Pisar fronteiras, mentais e geográficas.

 Inquietude no olhar.

 Sede em chegar...

 Regressar por fim.

 Olhos saciados de céu.

 Continuar….

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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Já chegámos às meias finais

 Há bolinhas por todo o lado...menos na árvore.

 O alinhamento de bolinhas não vai acontecer, pelo menos cá em casa.

 Simão chega às meias finais.

 Nós, resistentes, sobreviventes,continuamos com o espírito da época   a correr em sentidos opostos.

 

 

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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

:(

 

 

 

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

Contos de natal

 

 

Lembro-me das luzes a piscar na árvore, do som esperado das chaves na porta, das novidades que trazia da rua, do entardecer. O pai chegava e trazia sempre um mimo. Naquela tarde desembrulhei à pressa o pacotinho calculável em forma de livro. Desfolhei devagar. Olhos ingénuos de quem já dera onze voltas ao sol.

 ‘Um conto de natal’, Charles Dickens! O olhar aterrador de Scrooge insinuava alguma familiaridade com as personagens avarentas, que conhecia das aulas de catequese da irmã Carmo.

De um lado, Cristo, e a sua partilha límpida e imensurável. Do outro lado, aqueles que nunca entrariam no reino dos céus, devido à arrogância de suas palavras e suas acções. Naquele tempo, para mim, havia os bons e os maus. Só muito mais tarde descobri que somos feitos desses dois ingredientes e que é a porção certa de cada um, em cada circunstância, que nos caracteriza.

Uma coisa era certa. Era natal. Pedi à mãe e fui à velha livraria Portugal. Tinha de comprar um livro ao pai. Se Scrooge era o protótipo de uma avareza sórdida, eu tinha de encontrar um pensamento de partilha e igualdade. Ora, nesse ano de setenta e coisa e tal, a palavra comunismo fascinava-me. Para mim Cristo era ‘pai’ dessa doutrina de  fraternidade e comunhão. Para mim, ainda existia a fronteira entre os bons e os maus….mas já contei isso.

Comprei ‘O capital’ ( vários volumes que me levaram poupanças e tostões).  Na contra capa podia ler :’econiza a comunidade de bens e a supressão da propriedade privada’ . Aquilo soava-me a cristianismo. Esta troca de presentes faz parte do meu imaginário de natal. O pai continuou a devorar livros e jornais. Não sei se chegou a ler este meu presente marxista. Mas para mim, Jesus e Marx eram muito semelhantes.

 

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Sábado, 15 de Dezembro de 2012

Amanhã será outro dia

 

Dizem que a noite é boa conselheira...

Dizem que filho de peixe sabe nadar,  que quem sai aos seus não degenera,  que filho és pai serás, que  filhos criados trabalhos dobrados e que  quem tem filhos tem cadilhos.

Dizem também que não vale a pena chorar sobre o leite derramado, que a decepção é filha da expectativa, que  em casa de ferreiro espeto de pau e  que para a frente é que se anda.

Eu cá não gosto de ditados populares. Esta enfermidade de vivermos conforme aquilo que os outros pensam. Repugno falsas morais, débeis disfarces, com rabos de fora, pés de barro e telhados de vidro.

Eu sei que a galinha da vizinha será sempre melhor que a minha, que quando Deus fecha uma porta, abre sempre uma janela e que também Deus, escreve direito por linhas tortas. Será?  Não sei! Só sei que quando acordarem vou mima-las e ama-las incondicionalmente.

Quem muito fala (ou escreve) pouco acerta… pois.

Bem,..... o silêncio será então de ouro.

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

Há uma praia depois da sombra.....

Gosto de clareiras.

Gosto de florestas também…densas e húmidas. Sons quebrantes, folhas secas, raios tímidos de sol, fungos e animais receosos. Fazer parte, exalar, sentir unidade com a ‘mãe’.

Mas gosto de saber que existe uma clareira, algures. Lá, onde posso aquecer à soalheira do sol e olhar o céu azul índigo. Um círculo perfeito em cima da minha cabeça, a unidade com o ‘pai’.

Gosto desta dualidade divina.

Gosto de florestas….mas gosto t-a-n-t-o de clareiras!

 

 

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Será?!

 

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

Ouviste a chuva hoje, ouviste?!

 ....Não façam burulho!! - pediam baixinho, como se esperassem sons mágicos, vindo dos bosques secretos que só conhecem nos livros.

- Não façam barulho.......

 Lá fora bateladas sinfónicas martelavam nos telhados de chapa.

O céu ia desabar nas suas cabeças de sonhos possíveis. Mas nada roubava os seus sorrisos de encantamento.

- Não façam barulho! Vamos ficar caladinhos a ouvir a chuva.

 É tão linda !!

 

  

  

 

 

 

 

Um Dia de Chuva

 

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.



Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012

Relações perfeitas

Em êxtase com as minhas árvores de outono! -

  

 

 

No lugar da árvore

 

  No lugar da árvore. No lugar do ouvido.
  No lugar do chão. Unidade crepitante

  no silêncio aberto no Trânsito. Tronco, calma
  bomba indeflagrável, dádiva da identidade.

 

António Ramos Rosa

 

 

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Domingo, 2 de Dezembro de 2012

Paciência posta à prova

 

 Está aberta a época natalícia.

 Por mera coincidência começou também o CFGB:  Campeonato Futebol  de Gatos e Bolinhas.

 O alvoroço é uma constante e a nossa paciência é posta à prova.

 Haja benevolência, bom  humor, paz e amor , muita pachorra e todos aqueles predicados maravilhosos que alguns só desembrulham em dezembro.

 Mas ,o Simão está a leste deste espírito mascarado, que encobre alguns humanos , durante este mês.

 Para ele há festa, há árvore na sala, há escaladas, há desmoronamentos, há bolinhas….há o CFGB !

 

 

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Sábado, 24 de Novembro de 2012

Manhãs de sábado

 

 

Repetia-se o ritual.

Semanal e sereno.

Todos os sábados começavam com aquela chama. Fogo e luz que se reacendiam e legendavam polaroids amareladas. A vela. O despertar. O divino.

Depois dizia bom dia à Terra.

Água.

Regava vasos e terras secas. Religava-se. Sorria. Caules tenros e verdes acordavam e davam sentido à delicadeza dos gestos e dos olhares.

Sentava-se. Olhava a janela. Chovia. De nada adiantava estender máquinas de roupa…abrir janelas, mudar camas, sacudir, sacudir …

Era boa e ilusória a sensação de tarefa cumprida…parecia que nada mais havia por fazer.

 

 

 

 

 

 

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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

Saudades de casa!

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Sábado, 20 de Outubro de 2012

Tão brilhante que até conseguiu ser simples.

 

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

 

Manuel António Pina, in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

 

 

 Neste mundo de 'cão' vão desaparecendo os homens'gato' !  

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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

T-E-M-P-O

 ( Dizem que a idade se 'cola' à estação do ano.

Eu cada vez estou mais outono.

E gosto ! )

 

 

'Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.'


(A.M. Pires Cabral)

 

 

 

publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 07:19
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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012

Proeminências

 

 Desculpem me  Giorgione , Cezanne , Renoir e Chagall .

 

 Barrigas , beleza e verão não combinam !

 

 

 Giorgione     Sleeping Venus   oil   1510

 

 

Paul Cezanne, de 1890         

 

 

Renoir , 1897

 

 

Marc Chagal , 1917

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Domingo, 8 de Julho de 2012

Hoje à noite em Cascais

 

 

publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 14:22
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Sábado, 7 de Julho de 2012

A furibunda concepção

 

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

 

Herberto Helder

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Domingo, 1 de Julho de 2012

A transição está aí !! Quem quer embarcar !?


 

Farei o que estiver no meu coração, independentemente do ponto a que chegue!!
publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 23:27
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012

A caminho do parque dos poetas

.....sobre os campos de cevada!

 

Many years have passed since those summer days

Among the fields of barley

See the children run as the sun goes down

Among the fields of gold

You'll remember me when the west wind moves

Upon the fields of barley

You can tell the sun in his jealous sky

When we walked in fields of gold...............

 



publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 16:29
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

Educação...industrial.

 

Num país com baixos índices de escolarização e altos níveis de iliteracia, os pais tendem a confundir a preparação, a cultura e o conhecimento dos seus filhos com as notas que eles têm em exames. Este "conhecidómetro" instantâneo transformou-se no alfa e no ómega do nosso sistema educativo. Pouco interessa o que realmente se aprende na escola e qual a utilidade do que se aprende para o desenvolvimento intelectual, cultural, técnico e emocional (desculpem, "emocional" não, que é "eduquês") da criança (desculpem, "criança" não, que é "piegas") e do adolescente. A escola tem apenas uma função: preparar para os exames.

Um pai um pouco mais exigente, que tente acompanhar os estudos do seu filho, depara-se sempre com a mesma avassaladora e pragmática resposta: "pai, isso não me interessa, não sai no teste"; "mãe, não é assim que está no livro". A nossa escola promove duas coisas: a completa ausência de sentido crítico e a capacidade de memorização. Não desprezo a segunda, muitíssimo longe disso. Mas, se não me levarem a mal, não chega.

 

Na escola portuguesa também se despreza cada vez mais a capacidade de desenvolver projetos, em grupo ou individualmente, promove-se pouco o desejo de ir mais longe do que é debitado nas aulas e dá-se muito pouco valor à expressão oral. Depois de centenas de exames, um aluno com excelentes notas pode acabar a escola sem saber desenvolver oralmente uma ideia e sem conseguir argumentar num debate. Porque o essencial da avaliação é feita através de provas escritas, sem consulta, e iguais para todos.

Compreende-se esta opção: é aquela que melhor serve o raciocínio do burocrata. E para o burocrata a exigência não se mede por o gosto por aprender (ui, o que eu fui escrever!) e pelo desenvolvimento de capacidades que são forçosamente diferentes, de pessoa para pessoa. O burocrata abomina, pela sua natureza, as variações que lhe estragam os gráficos.

Os testes e exames não servem para avaliar o que se aprendeu nas aulas e fora delas, as aulas é que servem para os alunos se prepararem para os testes e exames. E avaliados de uma forma que, com raríssimas exceções, nunca mais vão voltar a experimentar na sua vida. Nunca mais, em toda a minha vida, me tive de sentar numa secretária e despejar por escrito o que, como a esmagadora maioria dos alunos, tinha decorado uns dias antes.

O ministro Nuno Crato passa por um reformador. Porque alguém meteu na cabeça das pessoas que há uma qualquer relação entre a "escola moderna" (um movimento pedagógico considerado libertário) e as práticas e teorias em vigor nas escolas públicas e no Ministério da Educação. Na realidade, a escola sonhada por Nuno Crato é muito próxima da escola que realmente temos. Ele apenas decidiu agravar todos os seus vícios: a "examinite" aguda, o domínio absoluto do que a gíria estudantil chama de "encornanço" e o predomínio burocrático da avaliação como princípio e fim das funções do ensino. Lamentavelmente, como poderemos ver comparando o nosso sistema educativo com os melhores da Europa - o finlandês, por exemplo, que tem os melhores resultados no mundo apenas tem, que eu saiba, um exame no fim do ensino secundário -, este sistema não prepara profissionais competentes, pessoas interessadas e cidadãos conscientes. Este sistema burocrático, pensado por burocratas, apenas forma excelentes burocratas.

Nuno Crato já tinha criado os exames no final do 2º ciclo e, absoluta originalidade em toda a Europa, no final do 1º ciclo. Promete agora a introdução de mais exames nacionais, no final de cada ciclo, em mais disciplinas. Não tenho a menor dúvida que a medida é popular. Popular entre muitos pais, que podem ver as capacidades dos seus filhos traduzidas em números, sem terem de acompanhar o que eles realmente sabem. Popular entre muitos professores com menos imaginação que têm assim metas bem definidas, sem a maçada de trabalhar com a singularidade de cada aluno.

 

A escola, como uma fábrica de salsichas, é o sonho do ministro contabilista, do professor sem vocação e do pai sem paciência.

 

 Não vale a pena é enganar as pessoas: não se traduz em qualquer tipo de "exigência" (uma palavra com poderes mágicos, capaz de, só por ser dita, transformar a EB 2 3 de Alguidares de Baixo no Winchester College) nem em mais qualificação profissional e humana dos jovens portugueses. Os países que conseguiram dar à Escola Pública essa capacidade seguiram o caminho oposto. Aquele que Nuno Crato abomina.

 

Daniel Oliveira

Expresso

 

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publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 14:45
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."Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar". Sophia de Mello Breyner Andresen

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tudo no teu sorriso diz que só te falta um pretexto para seres feliz uma querela talvez chegasse ou um pequeno pastor que passasse na estrada, com suas ovelhas um riso, um pormenor que no momento se pousasse e o tornasse melhor eu vou pensando em coisas velhas - sem sombra de desdém! - na vida naquele lampejo fugace que o teu sorriso já não tem e que é do passado porque a nossa grande sabedoria não soube tratar ente tão delicado e declina, o dia o pequeno pastor já não vem (Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Assírio & Alvim)

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.AS FADAS As fadas...eu creio nelas! Umas são moças e belas, Umas vivem nos rochedos, Outras, à beira do mar...

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-Te que sejas o presente. Peço-Te que inundes tudo. E que o Teu reino antes do tempo venha E se derrame sobre a Terra Em Primavera feroz precipitado. Sophia de Mello Breyner Andresen

.Ser poeta é ser mais alto...

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!

.RAÍZES

Quem me dera ter raízes, que me prendessem ao chão. Que não me deixassem dar um passo que fosse em vão. Que me deixassem crescer silencioso e erecto, como um pinheiro de riga, uma faia ou um abeto. Quem me dera ter raízes, raízes em vez de pés. Como o lódão, o aloendro, o ácer e o aloés. Sentir a copa vergar, quando passasse um tufão. E ficar bem agarrado, pelas raízes, ao chão. (in Herbário) jORGE sOUSA bRAGA

.Somewhere over the rainbow

Quase Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído Num grande mar enganador de espuma; E o grande sonho despertado em bruma, O grande sonho - ó dor! - quase vivido... Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim - quase a expansão... Mas na minh'alma tudo se derrama... Entanto nada foi só ilusão! De tudo houve um começo ... e tudo errou... - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, Asa que se enlaçou mas não voou... Momentos de alma que, desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei... Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios... Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí... Hoje, de mim, só resta o desencanto Das coisas que beijei mas não vivi... Um pouco mais de sol - e fora brasa, Um pouco mais de azul - e fora além. Para atingir faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém...

.Florbela Espanca

Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d’açucenas! Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo Que te não vejo, amor! Meu coração Morreu já, e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d’oração! “Amo-te!” Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d’amor e felicidade! Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então… brandas… serenas… Cinco pétalas roxas de saudade… Florbela Espanca - O Livro D’Ele ********************************************* De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa dizer do meu amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure. Vinicius de Moraes *************************************************** Palavras que disseste e já não dizes, palavras como um sol que me queimava, olhos loucos de um vento que soprava em olhos que eram meus, e mais felizes. Palavras que disseste e que diziam segredos que eram lentas madrugadas, promessas imperfeitas, murmuradas enquanto os nossos beijos permitiam. Palavras que dizias, sem sentido, sem as quereres, mas só porque eram elas que traziam a calma das estrelas à noite que assomava ao meu ouvido... Palavras que não dizes, nem são tuas, que morreram, que em ti já não existem — que são minhas, só minhas, pois persistem na memória que arrasto pelas ruas. Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias” *************************************************** ********************