Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Doce infância

 

Os meus alunos andam a perder os dentes. Sinal de crescimento e de novas descobertas. Maxilares maiores, cérebro maior.

Lembro do momento mágico, que vivi com a minha filha mais nova, nessa altura.

A fadinha dos dentes era infalível.

Trocas perfeitas entre caninos e moedas, entre molares e livros, entre incisivos e brinquedos.

Uma maravilha!

A certa altura, e já a explodir de curiosidade e de excitação, ela pôs-me entre a espada e a parede, e ultimou-me:

_ Mamã, diz a verdade, diz, por favor, diz! Tu é que és a fadinha dos dentes?! Não és!?

Pronto! Estava tudo acabado – pensava eu -.  A magia tinha terminado, as asas tinham caído e o frasco do perlimpimpim chegara ao fim.

Desarmada, entreguei armas e ilusões.

_ Sim. Sou eu.

Mas, num ‘volt-fast’ surpreendente e digno do top das fadas, os olhos da minha menina abriram-se ainda mais.

Mil estrelas luziram, na sua infância feliz, e gritou de espanto e felicidade:

_Mamã!!!!!!!!!! Como consegues ir a casa de todos os meninos!!!

Nada tinha terminado, pelo contrário.

A magia da infância tinha rejuvenescido, tal Fénix renascida.

 

 

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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Para Anne

Li pela primeira vez, 'O diário de Anne FranK', com 12 anos.

Para mim, Anne  era uma menina, com sonhos, segredos, projectos, ansiedades e angustias, como todas as meninas de 12 anos .

Esperava encontrar uma menina heroína: Mas ela era 'apenas' uma menina como eu. Por isso o seu testemunho era muito mais forte e intenso para mim. Por isso eu ria com as suas patetices e chorava com os seus dramas.

Foi com ela que relembrei a estupidez da guerra e a relatividade dos 'não' problemas.

Neste dia,  Internacional da Memória do Holocausto, o meu post vai para a Anne e para todos, que ainda hoje, são vítimas de todos os tipos de tortura. 

 

 

' Basta de brincadeira, deixa-me falar a sério. Não parecerá inconcebível ao Mundo, depois da guerra - digamos dez anos depois -, o que nós, os judeus, contarmos sobre a nossa vida aqui, as nossas conversas e as nossas refeições? Pois embora te tenha contado muita coisa, tu ainda só ficaste a saber uma pequena parcela desta vida.
O medo das senhoras, quando há bombardeamentos como os do Domingo passado, em que trezentos e cinquenta aviões ingleses lançaram meio milhão de quilos de dinamite sobre Ijmuiden e as casas estremeceram como as folhas com o vento.

E o terror das epidemias que grassam no país! Disto ainda sabes pouco, e seria preciso que eu escrevesse todo o dia se quisesse fazer um relatório completo. A população forma bichas para comprar hortaliça ou seja o que for. Os médicos não podem visitar os seus doentes, porque lhes roubaram o automóvel ou a bicicleta. Ouve-se falar de pequenos furtos e de roubos em grande escala, e eu pergunto a cada passo o que foi feito da honestidade dos holandeses, quase proverbial?

Crianças dos oito aos onze anos partem os vidros das habitações alheias e tiram tudo o que lhes vem parar às mãos. Ninguém tem coragem de deixar ficar a sua casa abandonada durante cinco minutos, pois, ao voltar, pode muito bem encontrá-la vazia. Todos os dias se leem nos jornais anúncios em que se prometem gratificações pela entrega de coisas roubadas, máquinas de escrever, tapetes persas, relógios eléctricos, tecidos, etc., etc. Os relógios das ruas são desmontados, e até se tiram os telefones das cabinas sem deixar ficar um pedaço de fio sequer.'

(...)

'Estas perguntas são legítimas, mas até agora ninguém soube encontrar-lhes uma resposta satisfatória. Porque é que na Inglaterra se constroem aviões cada vez maiores, bombas cada vez mais pesadas e, ao mesmo tempo, se reconstroem filas de casas? Porque é que se gastam todos os dias milhões para a guerra, se não há dinheiro para a medicina, os artistas e os pobres? Porque é que há homens a passar fome se, em outros continentes, apodrecem víveres? Porque é que os homens são tão insensatos?'

(...)

'Se Deus me deixar viver, hei-de ir mais longe do que a mãe. Não quero ficar insignificante. Quero conquistar o meu lugar no Mundo e trabalhar para a Humanidade.
          O que sei é que a Coragem e a Alegria são os factores mais importantes na vida!'

 

Anne Frank 

 

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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

Fotomania

 

Gosto de fotografia.

Gosto de fotografar.

Prender instantes, guardar memórias, cores, lugares e histórias.

Reviver.

Em certas fotos, ainda sinto os cheiros, a música, a pele.

Mas, e se eu deixar de fotografar as minhas viagens, as minhas experiências e emoções, elas deixam de existir!?

Eu, deixo de existir?

Não! Claro que não!

Mas dá a sensação que sim.

Tamanha é a actual importância do documento visual, tudo vira público.

A facilidade e a trivialidade da partilha desses pequenos ápices, tomaram, por vezes, dimensões imprudentes e ostensivas....

 

Felizmente, não tem de ser necessariamente assim.

Há momentos tão intensos, mas decerto  tão reais, que permanecerão intactos e para sempre na nossa memória.

E apenas nela!

 

 

                                                                       

 

 

 

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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

O caminho faz-se caminhando...

...caminhando...
...recuando...
...indo em frente.....

'Cada um de nós compõe a sua história.
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz....
E ser feliz'

 
publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 21:26
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Sonhos de uma noite de inverno

 

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Sábado, 19 de Janeiro de 2013

Mamy blue !

 

Hoje sonhei com a minha prima T.

Um dia, chegou orgulhosa dos seus 18 anos e disse-me com ar de quem já sabe muito:   '_Acabaram- se os livros dos Cinco!’ _ ‘Temos de começar a ler os clássicos’.

Pôs me nas mãos o calhamaço ‘BenHur’, depois, tal como na expansão do império romano, a incursão aumentou. Vieram ‘Robinson Crusoé’,

‘A volta ao mundo em oitenta dias’, ‘Viagens na minha terra’, ‘Esteiros’, ‘D.Quixote’ e tantos outros que me alargaram os braços e a imensidão do mar e das palavras.…

Admirava-a em segredo e imaginava as recônditas histórias que ouvia a seu respeito. As crianças que crescem sem irmãos apuram o seu sentido de observação e veem coisas transparentes, que ninguém consegue perceber. Crescem atentas. Serão atentas toda a vida.

As tias falavam das perniciosas festas da gravata. Era o ano de 75 e o movimento hippie acalorava jovens portugueses acabados de sair de uma ditadura. Eu gostava de a ir buscar ao ISPA, ainda no Chiado. Apresentava-me aos amigos ‘grandes’ como se eu fosse ‘grande’ .E eu gostava. Tinha permissão para entrar no seu quarto, quando todos cantavam ‘Mamy Blue’. Ficávamos ali, em roda, pernas à chinês. Ricky Shayne e nós.  Vozes arrastadas e as violas em uníssono. Levava-me à Gulbenkian em noites de inverno e injetava me com bailados russos e pas- de -deux acabados de chegar, pela mão do jovem Salavisa. O Lago dos Cisnes,La Sylphide, Coppélia, Raymonda, Festival das Flores e Romeu e Julieta,…

Oito anos nos separavam, ou talvez nos unissem. Eu era o barro, ela o oleiro, jovem e idealista. Lembro-me dela. Tanto! Como marcou essa minha serena e atenta infância! Como a salpicou com borrifos de lucidez e de tolerância. Como me ensinou a imensurabilidade do mundo lá fora e o prazer do ignoto.

Partiu antes da hora. Se é que há horas certas para partir.  

Nunca pude crescer ao ponto de lhe dizer, como foi importante para mim.

 

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publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 20:53
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

Relatividade do tempo

 

 

Explicação da Eternidade devagar,

 

 o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

publicado por SEMLINHASCRUZADAS às 07:10
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Domingo, 13 de Janeiro de 2013

Não há pachorra!

Concordo.

Ela tem aquela vozinha snob e um aparelho ortodôntico que não lhe favorece a dicção, lhe prolonga as sílabas e sei lá, a …tipo…a futilidade.

Concordo.

Pode ser mimada e superficial. Pode parecer tonta e vazia. Pode ser queque e inconsciente.

Mas chega de tanta hipocrisia!!!

Queriam o quê !?

Aqueles velhos e falsos discursos, das candidatas a Miss Universo, que tinham como sonho  e máxima, o fim da fome em África, o desaparecimento do buraco de ozono e uma série de finais felizes arrancados das  suas recentes histórias da Cinderela, com ‘… e foram felizes para sempre’.

Queriam o quê!?

Vivemos num mundo dominado pelo dinheiro, pelo consumismo, pela aparência. Abro a televisão e inundam-me com famas shows, mundos VIPs, casas de segredos, Lux, Caras e histórias de famosos.

Queriam o quê!?

Chamá-la à televisão e cruxificá-la com falsas morais é que me escandaliza!!!

 Maria José Ruela ,qual a marca da sua mala?

 Onde está o seu profissionalismo jornalístico quando fez aquelas perguntas?

 Se não fizesse perguntas idiotas o que gostaria de perguntar?

Está arrependida de fazer parte deste vale tudo, menos arrancar olhos!?

 

Tenham paciência!!

Não é a minha prioridade, nem vou concretizar este desejo…mas eu queria uma Louis Vuitton ( verdadeira), igual a essa aqui debaixo :

 

E  ?!!!!!

                             Qual é o problema ?!

                      Não há pachorra para tanta hipocrisia!!

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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

Fim de tarde - lado B

  

Há dias reais, em que chego a casa ainda viva.

Saio tarde da escola, com trabalhos pendentes e sacos cheios de projetos inacabados, que vão acabar por pernoitar no porta bagagens.

Faço compras pouco pensadas, visualizando listas que ficaram esquecidas entre livros de poemas.

Corro para casa dos P., atrás de adormecidos carros de condução.

Conduzo o leme primordial, mergulho nos laços das relações mais complexas da raça humana e queimo neurónios impotentes.

Puxo a vida, estico o tempo, agito memórias e humores. Mas serei sempre muito mais cuidada que cuidadora. Jogo dominó chinês e bocejo.

Recordo a cartolina que esqueci de comprar….e o papel autocolante…e o bostiK.

Penso no jantar, ainda hibernado no congelador de casa e recebo surpresa de P. com refeição já preparada, quase servida e dou graças.

Corro para o multibando. Apanho chuva. Levanto dinheiro para pagar à S…e ao Z.C….e à M.

Recolho filhas de escolas esquizofrénicas, levo-as aos apoios e explicações.

Regresso a casa com um turbilhão de histórias frenéticas de adolescentes eufóricas, que contam, em stereo, novidades mirabolantes de stores loucos e de Fannys ,de Marcos ,de  Alexandras , que lhe poluem o cérebro e o sentido da realidade.

Chego tarde a casa.

Uma entre a multidão.

Sonho com os dias perfeitos. Tão raros e exímios.

 

 

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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Fim de tarde

 

Há dias perfeitos, em que chego cedo a casa e respiro.

Refaço camas frias, arrumo  ténis soltos pela sala, ressuscito toalhas mortas, do chão da casa de banho, alimento tachos no fogão, desperto CDs esquecidos, abraço o gato , ronrono, abro e fecho gavetas e pensamentos.

Há dias perfeitos, em que chego cedo a casa e sorrio.

As orquídeas tiveram bebés e nascem as primeiras flores do ano.

Jardino, mudo vasos e terras.

Transplanto amores perfeitos, que teimam em viver no parapeito das minhas janelas e espero que todos cheguem a casa, para os abraçar.

 

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Cinzento

 

 

 

cinzento

adj.

Da cor da cinza.

 

cinza

s. f.

1. Resíduos de um corpo queimado.

2. [Figurado]     Restos mortais.

3. Memória dos finados. (Mais usado no plural.)

4. Luto; mortificação; dor.

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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

Começar de novo

 

   Cause they say home is where your heart is set in stone!!

 

   De regresso...

 

 

  ...Voltar a casa. Começar um novo ano.

  Regressar e recomeçar são verbos que me redefinem.

 Mas viajar,está gravado no meu ADN. Eu quero ir. Sempre. Não importa para onde. Sou viciada em andar na estrada. Sair de casa, ser         estrangeira aos olhos dos outros, mas também reaprender a conviver com a imprevisibilidade da minha estranheza.

 Fugir de mundos perfeitos e ser feliz com a minha fragilidade. Ser feliz por nada. Pisar fronteiras, mentais e geográficas.

 Inquietude no olhar.

 Sede em chegar...

 Regressar por fim.

 Olhos saciados de céu.

 Continuar….

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."Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar". Sophia de Mello Breyner Andresen

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tudo no teu sorriso diz que só te falta um pretexto para seres feliz uma querela talvez chegasse ou um pequeno pastor que passasse na estrada, com suas ovelhas um riso, um pormenor que no momento se pousasse e o tornasse melhor eu vou pensando em coisas velhas - sem sombra de desdém! - na vida naquele lampejo fugace que o teu sorriso já não tem e que é do passado porque a nossa grande sabedoria não soube tratar ente tão delicado e declina, o dia o pequeno pastor já não vem (Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Assírio & Alvim)

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Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-Te que sejas o presente. Peço-Te que inundes tudo. E que o Teu reino antes do tempo venha E se derrame sobre a Terra Em Primavera feroz precipitado. Sophia de Mello Breyner Andresen

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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!

.RAÍZES

Quem me dera ter raízes, que me prendessem ao chão. Que não me deixassem dar um passo que fosse em vão. Que me deixassem crescer silencioso e erecto, como um pinheiro de riga, uma faia ou um abeto. Quem me dera ter raízes, raízes em vez de pés. Como o lódão, o aloendro, o ácer e o aloés. Sentir a copa vergar, quando passasse um tufão. E ficar bem agarrado, pelas raízes, ao chão. (in Herbário) jORGE sOUSA bRAGA

.Somewhere over the rainbow

Quase Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído Num grande mar enganador de espuma; E o grande sonho despertado em bruma, O grande sonho - ó dor! - quase vivido... Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim - quase a expansão... Mas na minh'alma tudo se derrama... Entanto nada foi só ilusão! De tudo houve um começo ... e tudo errou... - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, Asa que se enlaçou mas não voou... Momentos de alma que, desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei... Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios... Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí... Hoje, de mim, só resta o desencanto Das coisas que beijei mas não vivi... Um pouco mais de sol - e fora brasa, Um pouco mais de azul - e fora além. Para atingir faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém...

.Florbela Espanca

Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d’açucenas! Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo Que te não vejo, amor! Meu coração Morreu já, e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d’oração! “Amo-te!” Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d’amor e felicidade! Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então… brandas… serenas… Cinco pétalas roxas de saudade… Florbela Espanca - O Livro D’Ele ********************************************* De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa dizer do meu amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure. Vinicius de Moraes *************************************************** Palavras que disseste e já não dizes, palavras como um sol que me queimava, olhos loucos de um vento que soprava em olhos que eram meus, e mais felizes. Palavras que disseste e que diziam segredos que eram lentas madrugadas, promessas imperfeitas, murmuradas enquanto os nossos beijos permitiam. Palavras que dizias, sem sentido, sem as quereres, mas só porque eram elas que traziam a calma das estrelas à noite que assomava ao meu ouvido... Palavras que não dizes, nem são tuas, que morreram, que em ti já não existem — que são minhas, só minhas, pois persistem na memória que arrasto pelas ruas. Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias” *************************************************** ********************